Karlla Girotto
Mythos x Flaneur

photo by Claudia Guimarães

We're celebrating the launch of Flaneur magazine's seventh issue with special interviews from female artists featured in its pages. Each issue of Flaneur zooms in on just one street, somewhere in the world. This time, it's Treze de Maio in São Paulo, Brazil.

Find Flaneur and the full issue here.

Karlla Girotto is an artist engaged with forms of violence against women. With a masters in Clinical Psychology at the Subjectivity Studies Center at the Pontifical Catholic University of São Paulo, her research focuses on ways of existence in artistic production and the frontiers between performance, fashion, and life in the processes of creation and production of subjectivities.
Karlla's photographic series in Flaneur is an extension of the series reproduced here, I am many. It depicts women holding masks made of textile waste, created in a workshop with Karlla Girotto and Alessandro Marques.

This interview was conducted over email. Questions were sent in both English and Portuguese, and responses were given in Portuguese, then translated into English. Both versions are included here.
 


ON FLANEUR


Q: Can you describe the process of creating the masks for this project? 

A: The work I do for Flaneur is strongly connected to the project I have been developing since 2015 called Eu sou muitas (I am many), inspired by the text, The Lady from the Sea, an adaption of Ibsen's play made by Susan Sontag. The beginning of I am many was based on questions raised by a sentence said by the male character to the female character in the book, The Lady from the Sea: “you’ve adapted, you’ve evolved.” As I questioned the notion of adaptation and evolution within a relationship, I realized that this idea belongs to the metric desire of creating a standard to be lived up to, a sort of “place” in which the woman, in order to belong, must forge her desires and her freedom, running serious risks if she fails to do so.

With the help of Flaneur, we reached out to women in the region of Bixiga, a central and traditional neighborhood in São Paulo, through a social service that assists them. The women who signed up had a history of violent and abusive relationships.

On the first day, we met and listened to one another. I talked a bit about my story and the story of the character in The Lady from the Sea. I showed pictures from I am many and pictures from some matrilineal societies. These societies have been organized around the woman and not the man, much like in the western white patriarchal society. This shifts manners of perception on existence and how life is organized. These societies are nearly all extinct; the remaining ones making a great effort to persist as matrilineal, due to the considerable pressure caused by the globalized world.  

Later, I propose that each woman face a mirror, looking at her own reflection for a lengthy period; that, if possible, she remove all critical thoughts and judgments about her own face. Their instruction is to touch their faces, each contour and element. They should discover the lines of strength of a face, understanding their bone structure and what is the image and pattern that the bones show to the world, beyond the notion of “I am pretty, I am ugly / I like what I see, I hate what I see.”

After this, I propose a kind of scavenger hunt around the neighborhood, consisting simply of wandering around and searching for material that might be of interest. There is no pre-established criteria or defined goal; the idea is to allow your desires and things that catch your attention to guide you.

Once in possession of this [found] material, we meet once again and then I propose the following: 
- if it were possible to develop different skin, another face to have a dialogue with the world, from another perspective, what appearance would this have? What would the image be?
 - is it possible to materialize this image in the form of a mask?

And so they began to build their masks. Some finished their masks at home.

After two weeks, I go back and photograph them. For the background, I ask them to take sheets, a quilt or a towel, something that represents the domestic and intimate environment in which they live.


SOBRE FLANEUR


Q: Você pode descrever o processo de criação das máscaras para este projeto?

A: Este trabalho para a Flaneur tem estreita relação com um trabalho que desenvolvo desde 2015 chamado Eu sou muitas que parte do texto A dama do mar, adaptação de Susan Sontag para a obra do Ibsen. Eu sou muitas começou a partir dos questionamentos disparados por uma frase dita pelo personagem-homem à personagem-mulher no livro A dama do mar: “você se adaptou, você evoluiu”. Ao questionar a noção de adaptação e evolução numa relação afetiva, percebi que esta noção pertence ao desejo métrico de dispor um padrão a ser alcançado, uma espécie de “lugar” ao qual a mulher, para pertencer, deve forjar os seus desejos e a sua liberdade, correndo sérios riscos caso não o faça. 

Com a Flaneur, nós abrimos uma chamada pública para as mulheres da região do Bixiga, bairro central e tradicional de São Paulo, via um serviço social que atende estas mulheres. As mulheres que se inscreveram tinham um histórico de relações afetivas violentas e abusivas.

No primeiro dia, nos conhecemos e escutamos umas às outras. Eu contei um pouco a minha história e a história da  personagem do A dama do mar. Mostrei as fotos do Eu sou muitas e também fotos de algumas sociedades matrilineares.  Estas sociedades são organizadas em torno da mulher e não do homem, como é a sociedade patriarcal branca ocidental. Isso desloca modos de percepção sobre a existência e a organização da vida. Estas sociedades estão quase todas extintas, as que permaneceram fazem muito esforço para se manter como matrilineares porque a pressão do mundo globalizado é grande. 

Num segundo momento, proponho que cada uma delas se posicione em frente a um espelho e possa se olhar longamente. Que, se possível, se retirem todos os pensamentos críticos e julgamentos sobre o próprio rosto. A instrução é que se busque tocar o rosto, seus contornos e elementos. E ver quais são as linhas de força de um rosto, entender a própria ossatura e qual o desenho e a imagem que os ossos promovem no mundo para além da noção de "sou bonita, sou feia / gosto do que vejo, detesto o que vejo".

Depois, eu proponho uma espécie de caçada pelo bairro que é simplesmente sair à deriva buscando materiais que possam interessar. Não há critério pré estabelecido nem objetivo definido, a ideia é se guiar pelo desejo e pelo que convoca a atenção. 

De posse destes materiais, voltamos a nos reunir e então eu proponho o seguinte: 
 - se fosse possível elaborar outra pele, outro rosto para dialogar com o mundo desde outra perspectiva, que aparência teria isso? Qual seria a imagem? 
- é possível materializar esta imagem na forma de uma máscara? 

E então, elas começaram a construir as suas máscaras. Algumas terminaram as próprias máscaras em casa. 

Depois de duas semana eu volto e as fotografo. Para fazer o fundo das fotos, a instrução é que elas levem um lençol ou colcha ou toalha, algo que remeta ao ambiente doméstico e íntimo que elas habitam. 

A fake, unnatural face that is, at the same time, full of intentions and narratives—something that makes it possible to exist once again without the need to ask for permission to be alive.
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Q: You are a clinical psychologist as well as an artist. Nearly all the comments made by the women featured in Flaneur mention how the creation and wearing of handicrafts decreased their sense of fear and increased their sense of self-worth. Can you talk about this from a psychological perspective? 

A: Yes, I got my Master’s degree in Clinical Psychology in a very special program called Núcleo de Estudos da Subjetividade (Nucleus of Subjectivity Studies), where studies are oriented towards human understanding as a singular degree of potency. Maintaining this potency and vital process in functioning order, and breaking apart from the stagnation and anesthesia from bodies and lives, is health. I decided to study Clinical Psychology from the perspective of an artist and not with the aim of perfecting Psychological tools. Therefore, I am going to answer your question from this perspective.

I believe in encounters between people, their lives and their stories. Connection has the power to flourish the forces of life. This is what happened during the work process with these women. They could express this connection to one another and with the world through objects that, in a certain sense, are ceremonial and fictitious. The etymological sense of the world fictitious, which is “artificial, fake," is what led to the mask. A fake, unnatural face that is, at the same time, full of intentions and narratives—something that makes it possible to exist once again without the need to ask for permission to be alive.  

Upon negotiating with fear and traumas and watching as [their] colleagues do the same, toxic forces and attitudes that inhabited these women’s bodies were shifted, making way for the development of self-esteem, happiness and the possibility of a less miserable life. 
 


Q: Você é um psicólogo clínico e também um artista. Quase todos os comentários feitos pelas mulheres em Flaneur mencionam como a criação e o uso de artesanato diminuíram seu senso de medo e aumentaram seu senso de autoestima. Você pode falar sobre isso de uma perspectiva psicológica?

A: Sim, eu cursei Mestrado em Psicologia Clínica em um programa muito especial chamado Núcleo de Estudos da Subjetividade cujos estudos são voltados para o entendimento do ser humano como um grau singular de potência. Manter esta potência e processos vitais em funcionamento e romper com a estagnação e anestesia de corpos e vidas é saúde. Fui cursar Psicologia Clínica desde a perspectiva de uma artista e não para aperfeiçoar ferramentas da Psicologia. Então, é desde esta perspectiva que vou responder à sua pergunta. 

Acredito no encontro de pessoas, de suas vidas e suas histórias. O que tem poder de proliferação das forças da vida é conexão. E foi isso que aconteceu durante o processo de trabalho com as mulheres. Elas puderam expressar esta conexão entre si e com o mundo por meio de objetos que, num certo sentido, são objetos rituais, feitiços. No sentido etimológico da palavra feitiço que é "artificial, postiço" por isso, a máscara. Um rosto postiço, não natural e, ao mesmo tempo, carregado de intenções e narrativas, algo com o qual é possível existir de novo sem a necessidade de pedir alguma permissão para estar viva. 

Ao negociar com o medo e traumas e ao ver colegas fazerem o mesmo, forças e atitudes tóxicas que povoavam o corpo destas mulheres puderam ser deslocadas, abrindo espaço para o desenvolvimento de auto-estima, da alegria e a possibilidade de uma vida menos miserável. 


Q: How can fashion and handicrafts (in Flaneur or elsewhere) engage with violence against women?

A: This is not a simple question to answer because it is not a simple movement. It involves understanding which [kind of] fashion we are talking about and whom this fashion aims to service.

The reason for this is that there exists a kind of fashion that is a product of subjectivity (immediate and illustrative responses to the forces in the world), practiced by any living person who exercises their self-image desires and creates forms of existing and presenting themselves – this is the fashion that interests me. There is also a kind of fashion that is the spitting image of neoliberalism, promoting consumption discourses and narratives through marketing images. What is most perverse about this is that, many times, this fashion understands the power of contamination in the images produced by the first example, and captures this subjectivity in order to transform it into a product. We must highlight, question, fight and expose this type of fashion.

So, first, you need to understand that one type of fashion can strengthen actions of feminism and self-construction through self-image and self-esteem. And the other type of fashion reproduces, replicates and legitimizes violence against women, which is something daily and naturalized in images that are spread by the internet, publicity, buses, supermarkets, etc. The fashion that we need to combat is the fashion that reproduces the current standards of power and subjection, using images that were supposedly built to sell products to these women. 

We must be aware in order to understand which [kind of] world a certain type of fashion is strengthening. Only this way can we know if this fashion can be involved with the fight to end violence against women, or not. 
 


Q: Can you talk about some alternative lifestyles that you saw women creating in the neighborhood Treze de Maio, and how that influenced your work? 
[editor's note: The phrase and concept of "alternative lifestyles" was a misunderstanding on my part, derived from an incorrect description of Karlla's work in Flaneur.]

A: My work came into existence within a social work scenario. There, women are assisted because they do not have basic resources; they live in shared spaces called tenements, without any stable structure for food, health and basic care. So I need to point one thing out: it is not an alternative lifestyle that exists within the neighborhood. It is a miserable and poor life, with no resources. Even though this is a central neighborhood, where supposedly there should not be this type of housing or poverty, Bixiga still carries many traces of its origin. Bixiga was a senzala where slaves of the big houses in Paulista Avenue stayed. It is very interesting to think about Walter Benjamin’s concept of brushing history against the grain in order to understand the active and living germs that are buried under the layer of civilization of official History—always written with the aim of maintaining  the majority standard of the world in power: man, white, heterosexual, bourgeois, logocentric, phallocentric, etc. At Bixiga, the active germs of history stand out and make us think about how alive and present our colonial past is. This allows us to read the past as something that has survived up to the present.

In a way, my work deals with reading the past as something that survives in the present lives of women, and entering this [space] in order to get around the imposition that there is only one way to live, conceived exclusively under capitalist and patriarchal terms – violence against women is strongly tied to these two elements.


Q: Como a moda e o artesanato (em Flaneur ou em outros lugares) podem se envolver com a violência contra as mulheres?

A: Não é uma pergunta simples de responder porque  não é um movimento simples de praticar. Envolve entender de qual moda estamos falando e a quem esta moda está à serviço. 

Porque existe a moda que é produção de subjetividade (respostas imediatas e imagéticas às forças do mundo) que é praticada por qualquer pessoa viva exercendo seus desejos de auto-imagem e inventando jeitos de existir e de se apresentar – esta é a moda que me interessa. E existe também a moda que é a imagem escancarada do neoliberalismo promovendo discursos e narrativas de consumo por meio de imagens publicitárias. O mais perverso é que muitas vezes entende o poder de contaminação das imagens produzidas pelos grupos descritos no exemplo 1 e captura estas subjetividades a fim de transformar em produto. Este é o tipo de moda que devemos apontar, questionar, combater e denunciar. 

Então, precisa primeiro entender que um tipo de moda pode fortalecer práticas feministas e de auto-construção por meio da própria imagem e da auto-estima. E o outro tipo de moda reproduz, replica e legitima a violência contra as mulheres, que é algo cotidiano e naturalizado em imagens espalhadas pela internet, publicidade, ônibus, supermercados, etc.  A moda que precisamos combater é a moda que reproduz os padrões vigentes de poder e sujeição em muitos níveis usando imagens supostamente construídas para vender produtos para estas mulheres. 

É preciso estar atento para entender qual mundo um determinado tipo de moda está fortalecendo. Só assim saberemos se ela pode ter relação e envolvimento no combate à violência contra as mulheres ou não.

 


Q: Você pode falar sobre alguns dos estilos de vida alternativos que você testemunhou as mulheres criando no bairro de Treze de Maio, e como isso influenciou seu trabalho?

A: O meu trabalho se deu num polo de assistência social. As mulheres são atendidas neste polo porque não possuem recursos básicos, moram em lugares compartilhados chamados cortiços sem nenhuma estrutura estável de alimentação, saúde e cuidados básicos então, preciso pontuar uma coisa: não é um estilo de vida alternativo que existe no bairro. É uma vida miserável, pobre, sem recursos. Mesmo sendo um bairro central onde supostamente não haveria este tipo de moradia e nem de pobreza, o Bixiga carrega ainda muitas relações com a sua origem. O Bixiga era uma senzala onde ficavam os escravos dos casarões da Av. Paulista. É muito interessante pensar no conceito do Walter Benjamin, de escovar a história a contra pelo a fim de entender os germes ativos e vivos que estão soterrados sob a camada civilizatória da história oficial, sempre escrita para manter no poder o padrão majoritário do mundo: homem, branco, hétero, burguês, logocêntrico, falocêntrico, etc. No Bixiga, os germes ativos da história saltam aos olhos e nos fazem pensar o quão vivo e presente ainda está o nosso passado colonial.  Isso nos permite ler o passado como algo que sobrevive no presente. 

De alguma forma, o meu trabalho trata de ler o passado como algo que sobrevive no presente das mulheres participantes e jogar com isso a fim de driblar a imposição de que haja somente uma forma de vida concebida exclusivamente em termos capitalistas e patriarcais – a violência contra as mulheres está fortemente ligada à estes dois elementos. 
 

As you make your own clothes, it is possible to see that the prices adopted by fast fashion are unrealistic and most likely a consequence of slave labor.

ON G>E

Q: In your interview with NoBrasil, you said: “Here [her collective G>E], we draw up a personal cartography in which together we try to take care of all those desires, [...] and to make people understand that they do not have to have a goal.”
I’m wondering how the issue of finances directs and impacts your work. It’s kind of a paradox. How do you finance a haven from neoliberalism? 

A: This is the question that people usually ask me, as well as the G>E and Ateliê Vivo participants. I try to think about the meaning of money and capital/neoliberalism separately, as they are different things.

A refuge from neoliberalism does not exactly mean not taking part in the circulation of money. More precisely, it means developing notions of how money acts when it is in the service of capital, in order to escape this type of subjection. Once again, it is not easy and there is no ready answer. What I have said here can be undermined in very little time by other notions that may make more sense. 

What I can say with certain guarantee is that there is no “outside,” but there is a way of creating your own “outside” even when you are inside. That is why there is no refuge but rather constant evaluations about now to stay in movement with a minor possibility of subjection. It is also possible to choose and strengthen other lifestyles.

 


Q: What change do you wish to see in the fashion industry as it is now? How do we create clothes without creating products?

A: [G>E's public library of clothing patterns] Ateliê Vivo’s experience can answer this question beautifully.

This project was born at G>E with patterns from my former studio that were no longer being used. They were made available to be used by the public and, today, Ateliê Vivo receives patterns from many other stylists.

It functions based on creating autonomy and critical reflection in the participant. Autonomy because it gives any person back the possibility of creating their own clothes and critical reflection because, as you make your own clothes, it is possible to see that the prices adopted by fast fashion are unrealistic and most likely a consequence of slave labor.

It operates based on very simple instructions: any person can take fabric, pick a pattern, cut a piece of clothing and sew. It is like a library. That is why we have named Ateliê Vivo a public library for patterns. This is a free and voluntary service offered to the public.

The goal is for people to be able to intervene in the logic of the fashion industry, taking back the knowledge and autonomy in making clothes. The project brings back manual techniques, optimizing material interaction (choosing, cutting and sewing the fabric) and manual construction (all of the steps are manual, even where auxiliary machinery is used).

Therefore, bringing back the autonomy of creation and execution of a piece of clothing also means breaking away from the consumption/production cycle.
 

SOBRE G>E

Q: Em sua entrevista com o NoBrasil, você disse: “Aqui, traçamos uma cartografia pessoal em que juntos tentamos dar conta de todos esses desejos, de todas essas linhas de força desacelerando e fazendo com que as pessoas entendam que não tem que ter um objetivo, não tem que ter um.”
Eu estou querendo saber como a questão das finanças direciona e impacta seu trabalho. É um paradoxo. Como você financia um refúgio do neoliberalismo?

A: Esta é a pergunta que todos costumam me fazer e também aos participantes do G>E e do Ateliê Vivo. Eu tento sempre pensar separadamente no que significa o dinheiro e o capital/neoliberalismo, que são coisas diferentes. 

Um refúgio do neoliberalismo não significa exatamente estar fora da circulação do dinheiro. Significa precisamente desenvolver noções de como age o dinheiro quando está à serviço do capital para poder estar fora deste tipo de sujeição. De novo, não é fácil e a não tem resposta pronta. O que respondi aqui pode ser abalado em muito pouco tempo por outras noções que venham a fazer mais sentido. 

O que eu posso dizer com certa garantia é que não há um "fora" mas um jeito de, mesmo estando dentro, produzir o seu próprio "fora". E, por isso, não há refúgio mas sim avaliações constantes sobre como se manter em movimento e com a menor possibilidade de sujeição. Poder escolher e também fortalecer outros modos de vida. 
 


Q: Que mudança você deseja ver na indústria da moda como é agora? Como criamos roupas sem criar produtos?

A: A experiência do Ateliê Vivo pode responder lindamente à esta pergunta. 

Ele é o projeto que nasceu no GE a partir de modelagens do meu antigo ateliê que não eram mais usadas. Elas foram disponibilizadas para serem usadas pelo público em geral e hoje, o Atelie Vivo conta com modelagens de muitos outros estilistas. 

O funcionamento é baseado para gerar autonomia e reflexão crítica no participante. Autonomia porque devolve a qualquer pessoa a possibilidade de construir a sua própria roupa e reflexão crítica porque, ao fazer a sua própria roupa, é possível se dar conta de que os preços praticados pelo fast fashion são irreais e provavelmente frutos de mão de obra escrava. 

Opera a partir de instruções muito simples: qualquer pessoa pode levar um tecido, escolher um molde, cortar uma roupa e costurar. Como em uma biblioteca. Por isso, nomeamos de Ateliê Vivo – biblioteca pública de modelagem. Este é um serviço gratuito e voluntário oferecido ao público. 

O objetivo é que as pessoas possam intervir na lógica da indústria da moda retomando o conhecimento e a autonomia sobre a construção de uma roupa. Resgata técnicas manuais potencializando a interação material (escolher o tecido, cortar, costurar) e o fazer manual (todas as etapas são manuais, mesmo as que utilizam maquinários auxiliares).
Assim, devolver a autonomia de criação e execução de uma roupa significa também romper com o ciclo de consumo/produto. 


Q: Would you be willing to recount a particularly beautiful or encouraging story about how your work at G>E has impacted one or more women’s lives?

A: I wouldn’t tell a specific inspiring story for fear of burying so many others. In a way, talking about G>E is also talking about myself. This group is a manner and extension of the way that I see myself in the world, and it has been like this since the beginning. That is why, if there are stories, they are mixed with those of so many others; sewing others to yourself so that no one will be invisible. We have been practicing this, and I can say that I have had many stories sewn onto me and I have stitched many more stories onto others.

The personal is political. This is an expression said by feminist Carol Hanisch, who encourages me to continue with projects such as the one that has been carried out with G>E – which to me, means the elimination of a boundary between public and private, desire and potency. This statement involves the positioning of each person in politics and that is what we have been trying to do at G>E. 

As you strengthen your own notion of singularity, you strengthen the collective notion and vice-versa. Today I would dare to rewrite this sentence thinking about the extent of alterity as a field of transformation within subjectivity. There is an impersonal that crosses the personal, thus making it political.

Therefore, we mix our lives, our stories and our journeys. We feel together, talk, support each other and welcome our lives. There is no way to produce a work of art without producing a life; it is not possible to critique a material project without first strengthening life forms that can produce work that will generate transformation and changes in perception. That is what G>E is about – many beautiful and inspiring stories within a personal-impersonal mix.
 


Q: Você estaria disposto a contar uma história particularmente linda ou esperançosa sobre como seu trabalho no G>E impactou a vida de uma ou mais mulheres?

A: Eu não teria uma história inspiradora para contar por receio de soterrar tantas outras. De alguma forma, falar do G>E é também falar de mim. O grupo é modo e extensão da maneira como me situo no mundo e foi assim desde o princípio. Por isso, se existe alguma história, ela é a minha misturada com a de tantas outras. Costurar o outro a si de tal maneira que ninguém desapareça. Temos exercitado isso e digo que tenho muitas histórias costuradas em mim e costurei muitas minhas em outras. 

O pessoal é político. Expressão da feminista Carol Hanisch que muito me estimula a continuar trabalhos como o do G>E – que para mim significa a eliminação da fronteira entre público e privado, entre desejo e potência.  Esta frase implica o posicionamento de cada um na política e é exatamente esta a nossa tentativa no G>E. 

Ao fortalecer a própria noção de singularidade fortalece-se o coletivo e vice-versa. Hoje eu ousaria reescrever esta frase pensando na amplitude da alteridade quando campo de transformação de subjetividade. É que há um impessoal que atravessa o pessoal tornando-o então político. 

Assim, misturamos nossas vidas, nossas histórias e trajetórias. Sentamos juntas, conversamos, nos apoiamos e acolhemos nossas vidas. Não há como produzir um trabalho de arte sem produzir uma vida, não é possível exercer a crítica sobre um trabalho material sem antes fortalecer formas de vida que possam produzir trabalhos que vão gerar transformações e mudanças de percepção. O G>E é sobre isso – muitas histórias lindas e inspiradoras em uma mistura pessoal impessoal. 

Karlla's work from Vienna fashion week, September 2015


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Sophia Richards